Juro neutro do Brasil deveria ser 8% e não 5% como diz BC, afirma Kanczuk

O que é o juro neutro?

O conceito de juro neutro é uma métrica teórica utilizada no campo da economia para determinar o nível de taxa de juros que não promove nem a aceleração nem a desaceleração da economia. Em outras palavras, é a taxa que mantém a economia em equilíbrio, onde a inflação permanece estável e o crescimento é sustentado. O juro neutro é considerado essencial para análises de política monetária, pois fornece uma referência sobre como as taxas de juros reais impactam a atividade econômica.

Quando a taxa de juros está abaixo do juro neutro, isso geralmente indica uma condição de estímulo econômico, onde a baixa taxa torna o crédito mais acessível, incentivando o investimento e o consumo. Por outro lado, quando a taxa de juros está acima do juro neutro, pode ocorrer uma contração econômica, já que o custo do crédito se torna elevado, limitando o investimento e consumo, e consequentemente, desacelerando a economia.

Determinar o juro neutro é uma tarefa complexa e sujeita a variações ao longo do tempo, pois depende de diversos fatores, como a inflação, a taxa de crescimento econômico, a dinâmica do mercado de trabalho, e as políticas fiscais do governo. Em um cenário ideal, o Banco Central deve monitorar constantemente as mudanças nos fundamentos econômicos para ajustar a taxa de juros e manter a economia em um estado equilibrado.

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A visão de Fábio Kanczuk

Fábio Kanczuk, renomado economista e atual diretor de macroeconomia do ASA, apresentou uma visão contundente sobre a taxa de juro neutro no Brasil. Segundo Kanczuk, o juro neutro do país deveria ser estabelecido em 8%, bem acima do que o Banco Central sugere atualmente, que é de 5%. A argumentação de Kanczuk se baseia na observação de que a atual política fiscal expansionista do Brasil exige uma taxa de juros real maior para que a economia encontre um equilíbrio estável.

Ele explica que o cenário econômico atual, caracterizado por um aumento significativo na dívida pública e pressões inflacionárias, demanda um juro neutro mais alto para evitar riscos de excesso de estímulo. A falta de ações corretivas eficazes na política fiscal, como a potencial deterioração das contas públicas, implica que mesmo com uma Selic em níveis considerados altos, a economia pode ainda estar se expandindo, indicando que a taxa neutra real é superior ao esperado.

Além disso, Kanczuk destaca que o recente comportamento da economia brasileira, que não apresentou desaceleração drástica em resposta a taxas de juros nominais elevadas, sugere que o juro neutro é, de fato, mais alto do que o consenso de mercado sugere. Essa condição o leva a concluir que o Banco Central está operando em uma zona contracionista desde que a taxa real atingiu 8%, por isso suas colocações precisam ser levadas em consideração para futuras reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

Impactos da política fiscal

A política fiscal exerce um papel fundamental na definição do juro neutro e, portanto, nas taxas de juros básicas do Brasil. A análise de Kanczuk se posiciona em um contexto onde a deterioração fiscal e a promessa do governo de manter um equilíbrio fiscal têm levado ao aumento das taxas de juros.

Um dos principais problemas enfrentados pelo Brasil é o crescimento da dívida pública em relação ao PIB. Esse aumento não apenas coloca pressão sobre as contas do governo, mas também diminui a confiança dos investidores. Em um ambiente onde a credibilidade fiscal está em questão, os investidores exigem um prêmio maior sobre suas aplicações, o que resulta em taxas de juros mais altas.

Kanczuk e outros economistas do ASA mencionam que a política fiscal expansionista é um reflexo das tentativas do governo de estimular a economia. No entanto, essa expansão não vem sem custos. A deterioração da institucionalidade fiscal levanta preocupações sobre o longo prazo. Por exemplo, a prática de ajustar as contas governo para apresentar um déficit nominal ainda que formalmente cumprindo metas fiscais pode gerar desconfiança no mercado. Essa situação, onde se retira despesas do teto de gastos, em última análise, pressiona a curva de juros a se tornar mais elevada.

Por que o juro neutro deve ser mais alto?

Vários fatores sustentam a alegação de que o juro neutro deve ser elevado em um cenário como o encontrado no Brasil. Em primeiro lugar, a alta sustentabilidade da dívida pública influencia o apetite dos investidores. Com uma dívida em crescimento, os investidores podem ver a necessidade de garantir rendimentos mais altos para compensar o risco associado a um País que parece não conseguir equilibrar suas contas.

Além disso, a inflação, que historicamente tem sido um problema no Brasil, só reforça essa necessidade. Se as expectativas de inflação forem elevadas, é natural que as taxas de juros precisem ser aumentadas para que o rendimento real não seja corroído pela desvalorização do poder de compra. A consequência de uma inflação desenfreada é que a confiança dos consumidores e investidores diminui, gerando um ciclo de aumento de juros que pode ser difícil de controlar.

Outros aspectos que devem ser considerados incluem as condições globais de financiamento e o papel do Banco Central. Em um ambiente internacional onde as taxas de juros estão elevadas, devido a políticas monetárias restritivas em economias desenvolvidas, é preciso que o Brasil, para se manter competitivo, ajuste suas próprias taxas. Portanto, a estrutura econômica e as condições globais permitem justificar que o juro neutro deve se manter em níveis mais altos.

Consequências de uma Selic baixa

O nível de Selic tem repercussões diretas na economia, e uma taxa baixa pode trazer tanto benefícios quanto receitas. O principal resultado é que, em um ambiente de juros baixos, o crédito se torna mais acessível. Isso se traduz em maior investimento por parte das empresas e maior consumo das famílias, o que pode estimular o crescimento econômico.

No entanto, uma Selic baixa também traz riscos. Um dos principais riscos associados a uma taxa de juros muito baixa inclui a possibilidade de uma bolha de ativos, onde os preços de ativos sobem de forma insustentável, criando distorções no mercado. Além disso, com juros baixos, pode haver um incentivo à tomada de risco excessivo por parte dos investidores, o que pode levar a falhas financeiras.

Outro ponto a se considerar é o impacto sobre a inflação. A manutenção de juros baixos por períodos prolongados pode levar a um aumento da inflação, especialmente se a economia estiver perto ou já estiver operando a sua capacidade máxima. Se as expectativas de inflação começarem a sair do controle, o Banco Central pode se ver forçado a aumentar as taxas rapidamente, o que poderia desacelerar a economia abruptamente e causar recessão.

Expectativas sobre cortes na Selic

Em meio a um cenário de elevada inflação e um juro neutro sugere que seja mais alto, as expectativas em relação a cortes na Selic estão em constante evolução. Kanczuk destacou que, embora as condições atuais impliquem um juro neutro mais alto, o Banco Central pode adotar uma abordagem mais flexível, permitindo cortes na Selic em momentos específicos.

As expectativas do ASA são de que cortes na Selic podem ser antecipados, possivelmente no início de 2026, seguindo um padrão de 0,25 p.p. até uma expectativa de 11,50% até o final de 2026. Essa previsão se baseia na ideia de que a inflação começará a ceder, e as condições macroeconômicas se estabilizarão, criando espaço para a redução das taxas de juros.

No entanto, Kanczuk também ressalta que a condução da política monetária será extremamente cautelosa. O Corte vai depender de dados que mostrem que a economia está em um caminho de desaceleração controlada, sem levantar excessivas pressões inflacionárias. Portanto, a interação entre dados econômicos e decisões do Banco Central será crítica para a forma como as taxas de juros vão evoluir.

Os desafios fiscais do Brasil

O Brasil enfrenta uma série de desafios fiscais profundos que afetam a capacidade do governo de implementar políticas monetárias eficazes. Entre esses desafios estão a alta dívida pública, a pressão por gastos públicos e a necessidade de uma reforma abrangente do sistema tributário. A combinação desses fatores gera uma situação onde a incerteza prevalece, e os investidores se tornam mais cautelosos.

Um dos fatores centrais que intensificam esses desafios é a estrutura da dívida brasileira, que é predominantemente de longo prazo. Isso significa que, em tempos de aumento das taxas de juros, como o que está se observando atualmente, o custo de financiamento pode subir rapidamente, atingindo as contas públicas. A pressão por reformas estruturais, incluindo a melhoria da eficiência do gasto público, é fundamental para estabilizar a situação fiscal.

Além disso, as decisões do governo em relação a programas sociais e investimentos em infraestrutura devem ser equilibradas com a necessidade de disciplinar as finanças públicas. O desafio, portanto, é encontrar um equilíbrio que permita ao Brasil crescer sem comprometer a saúde fiscal, o que, por sua vez, contribui para um juro neutro considerado “normal”.

Projeções para a economia em 2026

As expectativas econômicas para 2026, conforme analisadas por especialistas como Kanczuk, sugerem um cenário de crescimento moderado, com inflação se estabilizando próximo da meta do Banco Central. O contexto econômico global, incluindo a taxa de juros nos EUA e nas principais economias, influenciará as perspectivas para o Brasil.

A projeção de cortes de juros sugere um potencial de estímulo para a economia, que, por sua vez, poderá alimentar um ciclo de investimento e crescimento. As estimativas de um crescimento do PIB mais forte dependem, no entanto, da preservação da confiança do investidor e das reformas estruturais, que podem contribuir para a melhoria das condições macroeconômicas.

Contudo, os riscos também são reais. Espera-se uma segunda metade do ano influenciada por incertezas relacionadas ao ambiente eleitoral Brasil, que pode afetar a confiança do consumidor e do investidor. A expectativa é de que, com a economia em um estado mais estimulado pelo corte de juros, o governo precisará de um planejamento estratégico para lidar com o aumento das demandas sociais.

Riscos inflacionários na política monetária

A política monetária no Brasil enfrenta um campo minado de riscos inflacionários, especialmente com a crescente pressão sobre os preços de bens e serviços. A expectativa é que, à medida que as taxas de juros começam a ser ajustadas para baixo, há uma chance de uma inflação mais acentuada no período eleitoral. O dilema, portanto, é como equilibrar a necessidade de crescimento econômico com o desafio de manter a inflação sob controle.

Alterações nas tarifas, aumentos salariais, e custo dos insumos podem contribuir para um cenário inflacionário mais elevado. Kanczuk menciona que existem assimetrias nos riscos inflacionários, com maior probabilidade de a inflação se mostrar acima das expectativas do que abaixo. Isso gera um desafio adicional para o Banco Central, que pode enfrentar dificuldades em manter a credibilidade se a inflação escapar de suas metas estabelecidas.

Ademais, o governo terá que ser cauteloso ao implementar políticas que visam estimular a demanda, dadas as implicações que isso pode ter para a inflação. O desafio está em encontrar um equilíbrio onde a economia possa crescer sem colocar em risco as conquistas alcançadas no combate à inflação.

Reflexões sobre a estabilidade econômica

A estabilidade econômica é uma das metas principais que tanto a política monetária quanto a política fiscal devem perseguir. Um juro neutro adequadamente estabelecido, combinado com políticas fiscais responsáveis, pode proporcionar um ambiente propício para o crescimento sustentável. No entanto, o Brasil ainda enfrenta uma série de desafios que exigem soluções inovadoras e um compromisso firme com a responsabilidade fiscal.

As discussões sobre o juro neutro e a necessidade de um equilíbrio entre crescimento e controle da inflação serão essenciais nas próximas reuniões do Copom. O aprendizado contínuo com os dados econômicos e a confiança no sistema financeiro serão fatores determinantes para a trajetória econômica do Brasil nos próximos anos. Portanto, a vulnerabilidade do Brasil a choques econômicos, tanto internos quanto externos, permanece um tema de grande preocupação e vigilância.

A interação entre crescimento econômico, taxa de emprego, e estabilidade da inflação precisa ser monitorada de perto, garantindo que as decisões políticas sejam tomadas de forma a preservar o bem-estar da população e sustentar a confiança no futuro econômico do país.